quarta-feira, 16 de julho de 2008

Yosemite na Os Caminhos da Terra

Foi atualizado esta semana o site da Revista Os Caminhos da Terra, que traz na edição de aniversário uma matéria de Yosemite escrita por mim. Pra quem perdeu nas bancas e se interessa pelo assunto, o link direto é o: http://www.revistaterra.com.br/revista/193/textos/2744

SUBINDO PELAS PAREDES
Toco com as mãos uma saliência no paredão, experimento outra, continuo em dúvida. Pela enésima vez, tenho de decidir em qual agarra colocar o gancho do equipamento que vai preso ao meu corpo. Escolher errado esse ponto de apoio natural pode me custar um vôo de 70 metros, antes de a corda me segurar e talvez quebrar minha coluna. Olho para Márcio Bruno, meu companheiro nessa história, que está uns 30 metros abaixo de mim, e divido com ele a minha angústia. "Se essa agarra quebrar, eu me arrebento todo e te levo junto", grito. Ele berra de volta, me dando força. Estamos no quarto dia de escalada pela via mais difícil de El Capitan, uma das torres de granito que fazem a fama do Parque Nacional de Yosemite, na Califórnia, Estados Unidos. A rota tem o sugestivo nome de Plastic Surgery Disaster, ou "Desastre da Cirurgia Plástica" em bom português, e não é para menos.Numa escala de perigo que vai de A1 (escalada segura) a A5 (queda mortal), a temida PSD tem 12 de seus 13 trechos classificados como A4 ou A5. E eu tinha diante de mim justamente um dos piores pedaços de parede, um A5 tenebrosamente conhecido como Suicidal Failure, ou "Falha Suicida". Lentamente, vou fazendo minhas apostas e vencendo a parede centímetro por centímetro. Uma hora depois, consigo chegar à base onde há dois grampos bem fixos e seguros, e sinto um alívio na espinha. Consigo relaxar um pouco, enquanto acompanho a chegada de Márcio. Ainda ofegante, e com o corpo lavado de suor, sou atormentado pela pergunta que volta e meia me vem no meio desses desafios nas alturas: "O que estou fazendo aqui?". Faltam ainda 500 metros até o topo e eu sei que essa interrogação só vai sair da minha cabeça depois que eu chegar lá em cima e voltar à terra firme são e salvo. Sei também que continuará sem resposta.Há 25 anos tento entender as razões da minha paixão por escaladas e não chego a nenhuma conclusão. Por mais inexplicável, o prazer de estar pendurado numa encosta de montanha é grande o suficiente para suportar fome, sede, frio, calor, medo, saudade de casa. E no meu caso não há montanha mais desafiadora do que as torres de pedra de Yosemite, onde a ascensão é vertical ou até mesmo em ângulos negativos. Aqui o prato servido aos paredonistas - os alpinistas especializados em paredes verticais - se chama "dificuldade técnica extrema". Os picos El Capitan, Half Dome, Leaning Tower, Cathedrals, Washington Collum e Sentinel abrigam algumas das mais desejadas vias de escalada livre e artificial com as quais um escalador pode sonhar. Se na parte baixa do parque a infra-estrutura para visitantes é completa, com serviço de resgate, hospital, hotéis, restaurantes, supermercados e todas as facilidades da vida moderna, aqui em cima, nas paredes nuas e verticais, experimenta-se a mais requintada técnica de escalada.Quem quiser testar suas técnicas e nervos nas vias mais perigosas descobrirá também várias maneiras de morrer escalando. Desde os primórdios do montanhismo americano, Yosemite e suas paredes de granito cinzento servem de campo de testes para as mais diversas técnicas e equipamentos de escalada. O que funciona em Yosemite, funcionará em qualquer encosta vertical do globo. Talvez tenha sido essa vontade de evoluir e superar o medo que me trouxe oito vezes ao Vale de Yosemite. A motivação que tive ao escalar pela primeira vez o Half Dome, em 1994, ao lado de minha esposa, Beth, foi a mesma que me levou ao topo da Leaning Tower no ano passado, na companhia de Cristian Yoshioka. Aqui se praticam todas as modalidades de escalada em rocha, da esportiva (rotas pequenas e bem protegidas, mas muito difíceis fisicamente) à tradicional (na qual se usa o mínimo possível de grampos).Foi em Yosemite que conceitos como free climbing (ascensão natural, feita sem apoios na rocha, com equipamento apenas para proteção) e clean climbing (escalada limpa, usando apenas peças que são encaixadas nas fendas e retiradas depois) foram definitivamente aceitos e hoje fazem parte da ética obedecida pelos escaladores. Se não bastasse, no inverno ainda é possível escalar na neve e no gelo das cascatas. Enfim, este é o paraíso na terra para um escalador fanático e disposto a impor-se desafios. Mas o parque, claro, não se restringe às suas torres de granito ... leia mais no site.

Um comentário:

Philipe disse...

Adreno relato! Para mim, é um sonho ainda distante. Tentei baixar o video da ascensão na Leaning Tower pelo procedimento do "salvar destino como" mas o link parace estar com problemas.
Se arrumar e tiver como mandar um e-mail dizendo que o video ta ok fico grato.
Um abraço.
biolipe@hotmail.com